quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Pelucinha! Chuchu! Ursinho! Neném! Tchuko!

Fico pensando na linguagem dos apaixonados. Como você trata seu amor? Dia desses estava lendo um texto do Drummond, delicioso, recordando-me que já o tinha lido na escola regular. "Pesquei" esse texto novamente no blog da Gilvânia Machado, de Natal, RN. Aliás, blog de muito bom gosto. Curta a maravilha da prosa poética, entitulada "A estranha (e eficiente) linguagem dos namorados":

(Se alguma foto pertencer a alguém, pode reclamar que eu tiro!)




– Oi, meu berilo!

– Oi, meu anjo barroco!

– Minha tanajura! Minha orquestra de câmara!


– Que bom você me chamar assim, meu pessegueiro-da-flórida!

– Você gosta, minha calhandra?

– Adoro, meu teleférico iluminado!

– Eu também gosto muito de ser tudo isso que você me chama!
– De verdade, meu jaguaretê de paina?

– Juro, meu cavalinho de asas!

– Então diz mais, diz mais!
– Meu oitavo, décimo, décimo quinto pecado capital, minha janela sobre a Acrópole, meu verso de Rilke, minha malvasia, meu minueto de Versailles.


– Mais, agapanto meu, tempestade minha!

– Minha follia con variazoni de Corelli, meu isto-e-aquilo enguirlandado, meu eu anterior a mim, meus diálogos com Platão e Plotino ao entardecer, minha úlcera maravilhosa!


– Ai que lindo, liiiiiindo, meu colar de cavalheiro inglês num retrato de Ticiano! Meu fundo-do-mar, você me põe louca, louca de amar as pedras, de patinar nas nuvens!


– E eu então, minha górgone, minha gárgula de Notre Dame, e eu, minha sintaxe de Deus?


– Você fala como falam os balões de junho de Portinari, as jóias da coroa do reino de Samarcanda, você, meu imperativo categórico, você, minha espada maçônica, você me mata!


– E você também me trucida, me degola, me devolve ao estado de música, meu tambor de mina!


– Todos os incentivos oficiais reunidos e multiplicados não valem a tua alquimia, meu ministro do fogo!
– Tuas paisagens, teu subsolo infernal, teus labirintos são superiores em felicidade a qualquer declaração dos direitos do homem!
– A primeira vez que eu vi você naquele bar do crepúsculo eu senti que as pirâmides e as cataratas não valiam a tua unha do dedo mindinho! Porque você é o Banco das estrelas, e pode comprar todas as coisas do mundo, inclusive as águas e os animais, para restituí-los à vida em liberdade! Como posso ouvir outras palavras senão as tuas, meu almanaque do céu? Minha ciência do insabível? Meu terremoto, meu objeto voador identificado?


– E nascemos um para o outro, nascemos um no outro, e estamos nessa desde antes do começo dos séculos, meu nenúfar!


– E estaremos mesmo depois que os séculos se evaporarem, ó meu desenho rupestre, meu formigão atômico!


– Mandala, raio laser, sextina! Tudo meu, é claro!
– Pomba-gira!
– Clepsidra!
– Sequóia minha minha minha!



Diálogo aparentemente louco, mas que dois namorados de imaginação mantêm todos os dias, com estas ou outras palavras igualmente mágicas. Não inventei nada. Apenas colecionei expressões ouvidas aqui e ali, e que me pareceram espontâneas, isto é, ninguém deve ter preparado antes o que iria dizer, de tal modo as palavras saíam entrecortadas de risos, interrompidas por afagos, brotando da situação. O amor é inventivo e anula os postulados da lógica. Ele tem sua lógica própria, tão válida quanto a outra. E os amantes se entendem sob o signo do absurdo – não tão absurdo assim, como parece aos não-amorosos. Já ouvi no interior de Minas alguém chamar seu amor de “meu bicho-de-pé” e receber em troca o mais cálido beijo de agradecimento.
Esta coletânea de frases de amor está aqui como introdução ao projeto não comercial de comemorações do Dia dos Namorados. Não para que sejam repetidas mecanicamente. Todo namorado que se preze deve inventar as besteiras líricas e deliciosas que a gente não diz para qualquer pessoa, só para uma, e só em momentos de pura delícia. Funcionam? E como!

Carlos Drummond. In: Boca de Luar. Não tenho o ano da publicação.


Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Não é o trato na linguagem que faz tudo ficar mais líquido, mais fácil de ser vivido? Nesta Salomão tinha razão! A palavra mansa abate o furor! E viva o prazer de cultivar estas pequenas delícias...





terça-feira, 5 de outubro de 2010

10 anos!

Clica na foto que aumenta! Estou completando 10 anos de casada! Parece que o tempo não passou! Às vezes me questiono o quanto mudei nestes anos e também o quanto o Ronaldo mudou. Óbvio ululante, não estou apontando as mudanças exteriores, as quais são evidentes, "meu caro Watson". Me refiro às mudanças por dentro, na alma, no peito. Quando me casei, aos 18 anos, não fazia ideia de como seria viver ao lado dele. Era uma menina, literalmente uma menina! Bem, não existem matrimônios perfeitos. Assim, perfeitinho, só no campo das idealizações, das utopias, que justamente significam "lugar nenhum". É muito bom ter alguém pra amar. E se este envolvimento quer dizer comprometimento, melhor ainda - apesar de não ser isso o que muitas pessoas consideram. Por que relativizamos o compromisso, a aliança? Não é fantástico saber que existe alguém com quem selamos um pacto? Clica na foto que aumenta! Em casamentos desgastados, desrespeitosos, maléficos e desmoralizados, não me pergunte como agir. Também não sei o que dizer para aquela pessoa que já tentou de tudo para salvar seu relacionamento, chegando ao ponto de se consumir a si próprio, engolindo a seco sua individualidade. Perguntemos como vão os valores do casal. Cada um faz a sua realidade, dia a dia, ano a ano. São tantas nuances que emolduram a vida a dois, dificílimas, que não sou capaz de explicar o quê fazer para mudar a situação de gente que enfrenta os estados enumerados neste parágrafo. A grande verdade é que nós nos acostumamos a mentir que estamos casados, quando na realidade estamos casados somente no sentido de habitar a mesma casa. Contudo, não comungamos mais o valor semântico de casar os sentimentos, casar o respeito, casar uma vida em comum. Mentimos sempre pra nós mesmos, para que a mentira vire um lenitivo pra nossa miserável dor - dor de ter de suportar o outro - como se o conjunto fosse suportável. Logo, fingir que está tudo bem dá menos trabalho. Clica na foto que aumenta! Dez anos me ensinaram a tentar casar todos os dias. Eu caso de novo com meu marido quando mudamos os móveis, as roupas, a cara do jantar, o perfume ou até mesmo quando trocamos de casa. O lance é que precisamos mudar, porque nós mudamos. Os gostos transcendem e com eles uma dezena de sensações e pensamentos. Uma década, um fato: sou outra pessoa. E ele também. Quando meu esposo me pergunta por que não gosto mais de determinada coisa, não é simplesmente porque não aprecio mais esta coisa, e sim porque mudei. Vice-versa novamente. Neste contexto, lembro-me de uma professora da faculdade (vamos dar os créditos: Prof. Maria do Carmo, Psicologia da Educação), que adorava citar Heráclito de Éfeso, filósofo do "vir-a-ser". Dizia ela, postulando o pensamento, que ninguém pode "banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois, ao banhar-se pela segunda vez, não será o banhista a mesma pessoa, nem o rio será o mesmo rio". Linda definição! Tudo muda! Se por um lado as pessoas mudam, ele, o matrimônio, paroxítona terminada em ditongo decrescente, continua sendo ele. Nós quem transfiguramos, porém marriage será sempre marriage. Se por um lado sofremos mutações enquanto gente, entendemos, portanto, que os protagonistas da relação matrimonial ou ficam díspares ou crescem juntos. Como continuar gostando da mesma pessoa na linha do tempo, mediante as diferenças que se avolumam? Não é uma resposta fácil. Deus tem que estar no negócio. E o casal tem que ter muita sensibilidade pra achar no outro uma novidade que faça o estômago borbulhar de alegria, como no início do relacionamento. As mudanças sempre vão existir em nós. Então as aproveitemos! Elas precisam ser portas de comunicação entre o casal, de modo que estas alterações internas sejam observadas e valorizadas, gerando novas estruturas. Senão você vira uma estranha para seu companheiro. E ele pra você. Desejo crescer junto com meu cônjuge. Ressalto que não falo aqui da relação profissional. Falo do entrosamento humano. Quero crescer como gente. Quero me sensibilizar com o que é belo, justo e verdadeiro, desejando alguém do meu lado que endosse e aumente minhas percepções. Num balanço superficial, penso que nos ajudamos a ser pessoas melhores, tanto nas obviedades da vida quanto na digestão e no trato daquilo que dói em nós. Ao levantarmos pela manhã, nesta data querida ("muitas felicidades, muitos anos de vida"), Ronaldinho me perguntou se eu fazia noção de que ficaríamos tanto tempo casados - mais - casados e sem filhos. Não nos casamos pensando em um dia nos separarmos, nem tampouco em filhos. Casamos pensando em amor, não só na realização corpórea da coisa (que aliás e infelizmente nem precisa do casamento para se concretizar); pensávamos em coisas simples, iguais a acordar do lado de quem se quer bem, conversar de madrugada, rir juntos, comprar coisas juntos, construir uma vivência juntos. Clica na foto que aumenta! Eu não conhecia a necessidade conjugal de estar bem no dia em que o outro está de saco cheio. Descobri com a vó Maria em meio as prosas, e depois vivendo. Claro e evidente que a vida não é tão simétrica a ponto de um estar num pólo e o outro corresponder. Sempre haverá dias em que os dois não estarão bem. Pois sim, descobri que, ainda que sujeitos às incertezas do acaso, um sempre tem de sorrir enquanto o outro come o seu bocadinho de fel. Um exercício real de paciência, disciplina e altruísmo, de ambos os lados. A convivência pode ser maçante se não fizermos dela uma delícia. Também quero deixar bem claro que casamento não se trata de uma fórmula de bolo, cuja receita faz-se assim ou assado. Mas, depois de tanto tempo juntos, a gente vai gerando nossos próprios clichêzinhos, não é mesmo? E assim a vida segue seu rumo. Viver em paz é uma bênção, mesmo nas nossas mudanças no correr cronológico. Pois é, vivendo MUTATIS MUTANDIS. Para melhor, lógico. E que venham mais dez, com a graça de Deus.